Manhã zicada

Acordei 6 da manhã e a recomendação era clara: Para fazer o exame, a bexiga tem que estar cheia. O exame era às 8 horas e achei que até lá, dava para segurar.

Sem problemas, me arrumei, tomei café e, claro, me atrasei. Para variar, culpa da Carla Vilhena e do casal Renato.

Arrisquei e resolvi ver se um amigo que trabalha na mesma região que eu, estava acordado e se já sairia. Ele ainda estava se arrumando, mas como iria de carro e para o mesmo lado, esperei. Saímos faltando 10 para as 8 e, certeza, daria tempo.

Oito em ponto! Para variar, confiei no Google Maps e, quando chegou no viaduto que o dito cujo apontava, pedi para o meu amigo parar em plena 23 de Maio, com maior galera buzinando e ele desesperado, e fui atrás da Avenida Indianópolis.

Mais uma vez me lasquei com o “navegador” da Skynet.

Pergunta dali e pergunta daqui, subi uma rua e, 10 minutos depois, achei a dita cuja. Tinha que ir para o número 922, olho na placa e… 210!

Xingando o mundo e apertado para caramba, subo a avenida popular dos velhos cheios de grana em busca de “diversão alternativa” e, após uma caminhada em ritmo de trote, chego ao meu destino. Visualizei até a voz daqueles GPS na minha cabeça.

8:40.

Pego a senha, me encaminho à recepção e nem dá tempo de sentar, pois já me chamam. Como estava concentrado em mentalizar qualquer outro ponto que não lembrasse água ou necessidades fisiológicas, já que qualquer queda na concentração e teríamos um “golden tsunami paulista”, não percebi que a mocinha pedia a documentação necessária para o exame.

Entrego tudo, digita dali, digita daqui, ela levanta, vai até uma sala e volta falando que não pode me atender. Quase perco a concentração.

Após explicar que é porque cheguei com meia hora de atraso e o doutor não poderia fazer o exame, peço para remarcar. Ela diz que não tem acesso ao sistema (sempre ele) e que eu teria que ligar para fazer o novo agendamento. Amo muito essas dificuldades idiotas.

Agradeço, vou saindo e… “Onde é o banheiro, por favor?”.

5 minutos depois vou para a rua, para a segunda parte da manhã zicada.

Conhecendo a Zona Sul

Logo que saio da clínica, vejo a 23 de Maio/Rubem Berta na esquina. O viaduto tem outro nome e, para variar, o Google me sacaneou colocando o nome do viaduto anterior. Ou seja, teria chegado no horário se não fosse esse contratempo.

Vou até uma banca de jornais e pergunto como faço para chegar em Santo Amaro. O velhinho manda eu descer a marginal e depois descer uma escadinha que, se alguém perder o equilíbrio, morre atropelado na 23. Ao chegar num ponto que se um pombo pousar, certeza que ele – o ponto – cai, fico meio receoso por só ver carros por tudo quanto é lado e nenhuma alma pedestre ou passageira por ali.

Para quem não conhece, SP tem uma divisão de cores para cada região, onde cada ônibus que vai para determinada região tem sua cor características, para onde eu ia, teoricamente serviria qualquer ônibus vinho. 10 ônibus azuis depois e já me desesperando por achar que o velho me sacaneou, surge um ônibus vinho com destino para o Terminal Guarapiranga e resolvo pegar esse mesmo.

Nem preciso dizer que conheci a Zona Sul inteira praticamente. Mais um pouco e ia parar na zona rural de Parelheiros ou, quem sabe, nas praias de Itanhaém. Fato que o pior foi passar apenas um ponto do que seria ideal de chegar o mais perto de onde trabalho e atravessar o Rio Pinheiros para o outro lado da cidade.

Mais atrasado do que nunca, peguei outro ônibus para o Terminal Santo Amaro e, chegando lá, mais um com destino ao Credicard Hall. Caí no conto do “vai sair jájá” e mais 10 minutos esperando.

Cheguei atrasadíssimo no trabalho (pior, depois do demônio), já apertado de novo e putíssimo. Segunda coisa que fiz foi ligar lá na clínica para agendar um novo horário.

Marcado para sexta, às 8:30, chegarei bem cedo e ai desse médico filhodaputa se não me atender na hora.

Darei 15 minutos de tolerância.

O Dia mais Feliz da minha Vida – Durante

Dei meu braço à minha mãe e jurei que não choraria, mais para meu irmão não levar os R$10,00 apostados com meu outro irmão, do que para manter a pose austera.

Falhei miseravelmente.

Conforme os acordes da música foram se iniciando, e a música Tudo que se quer entrando em meus ouvidos, junto com a imagem daqueles que, certeza absoluta, ajudaram a escrever a história da minha vida, rapidamente comecei a sentir aquele nó na garganta, a me deixar invadir por aquele momento único, inesquecível e que levarei comigo por toda a minha vida.


Sério, acho que sou proibido de ouvir essa música de novo. É tocar para marejar os olhos

Parei de segurar e deixei a emoção tomar conta de mim. Olhei para o lado, minha mãe chorando também, com aquele orgulho de levar o filho até o altar, entregando seu menino – porque para ela, homem ele não, mas sempre será um menino – para sua futura nora. Não perdendo ele, mas sim, perdoem-me o clichê, ganhando mais uma filha.

As lágrimas escorriam no rosto como a beleza das cataratas do Iguaçu, vendo minha vózinha emocionada, vendo mais um neto se casando, lembrei de meu avô, que tanto faz falta, e chorei mais, sem parar, sem conter, sem segurar o líquido salgado da felicidade.

Ao chegar ao altar, o padre me cumprimentou e brincou com meu choro, pedindo para me acalmar.

Eu soluçava de tamanha emoção e, para conter, fiz até uma respiração ridícula profunda, para recuperar o controle das minhas emoções. Pior que meus olhos já começavam a arder, já que estava com lentes de contato.

Ao me virar, fui vendo cada um dos padrinhos que, por incrível que pareça, representam cada momento da minha vida. Casal por casal, foi chegando, me cumprimentando, rindo da minha cara por causa do choro, tirando sarro da minha cara por isso e, enfim, sendo o que cada um é e que não seria diferente naquele momento tão especial para mim.

E eles foram entrando na ordem:

Lúcio e Jacelma
Eughenio e Daniella
Paulo e Camila
Micheline e Luis
Diego e Amanda
Carlos e Thaís
Vagner e Paula
Beto e Gilmara
Osni e Mari
Eric e Gabi

Todos lindos e maravilhosos!

Aí, quando já estava mais calmo, a porta da igreja se fechou.

Comecei a me soltar um pouco mais ao ouvir meus padrinhos, atrás de mim, conversando enquanto a noiva não entrava.

Meus outros amigos, Alex e Andrea, que não ficaram no altar para me dar de presente as fotos mais lindas que alguém pode fazer, fotografavam e tentavam me acalmar, já que, pelo jeito, parecia que eu estava para ir à forca. Mas só que ao contrário.

Eis que as portas se abrem e minha cunhada começa a cantar a Melodia do Amor, com a voz que deve ser a mais próxima ou melhor que as dos anjos. Instantaneamente vejo os pajens, meus sobrinhos Nathan e Vitória à frente, e a mulher mais linda que já pisou na Terra adentrando a igreja junto com seu pai.

Maravilhosa!

Fantástica!

Linda!

Não há palavras para descrever como Lu estava linda.

Enquanto caminhavam em minha direção, meus olhos jorravam tanta água, eu soluçava tanto, que parecia que teria um treco. Não era possível que aquele momento tão lindo estava acontecendo, não era possível que nós estávamos tendo um sonho em vida real tão maravilhoso como aquele.

Eles chegaram até mim. Abracei meu sogro tão forte que pensei que o quebraria ao meio. Beijei a testa de Lu e disse que ela estava linda. Soluçando.

Nos viramos para o padre e a cerimônia se desenrolou como se não houvesse atraso algum. Sem cortes, sem punições pelos pequenos percalços que tivemos até ali.

Confesso que não lembro ao pé da letra as bonitas palavras que o padre disse. Mas lembro a essência. Foi bacana ele citar meu irmão, Rafael, que tanto lutou para que tivéssemos essa cerimônia maravilhosa.

Já mais calmo, quase esmagando a mão da Lu, quando nos ajoelhamos, foi a vez de fazer todo o salão rir, acabando com o vácuo da cueca boxer que tanto me incomodava.

Durante a benção das alianças, nosso sobrinho estava tão entretido, que nem percebeu quando o padre pediu os anéis dourados. Quando se tocou, fez um “Tá aqui!” tão divertido, que a risada foi geral.

Após assinarmos o livro, fomos cumprimentar todos, mais uma vez, caí num choro, que o lenço que Diego me deu durante a cerimônia, podia ser torcido numa boa. Lenço esse que está comigo até hoje e que guardarei de lembrança.

Com o fim da cerimônia, ao som de “O Tempo não pode apagar” cantado novamente pela Milena, saímos e fui vendo todos ali. Amigos do Perequê, amigos do futebol, amigos jornalistas, amigos da escola, amigos do CAMPG, amigos parentes, parentes (=P), todos aqueles que ajudaram a construir meu caráter e que, de uma forma ou de outra, fazem parte da minha vida. Infelizmente, não foram todos que puderam comparecer, por motivos diversos, mas estavam lá de alguma forma ou de outra.

Ao sair, desta vez sem chorar, infelizmente não foi possível cumprimentar a todos na saída da igreja. Já que havia outro casamento para começar e, como já citado, o nosso atrasou tudo. Saímos com o carro e paramos na esquina da igreja, para ir falando com todo mundo. Depois, o Alex fez mais fotos e rumamos para a festa.

Assunto para conclusão desta história.