Enquanto isso, em um trem lotado

Relato do amigo jornalista Aparecido Francisco no retorno do trabalho para casa, em um trem confortável e com pessoas de boa índole, educação e bom papo.

A caminho de casa, após mais um dia de trabalho, sento-me no banco do trem, junto à janela, na estação da Luz. A composição, que tem como destino a estação Guainazes, na Zona Leste, aguarda estacionada.

Pessoas esbaforidas correm para entrar nos vagões e disputam cada lugar vago, como se defendessem suas próprias vidas. É a lei da selva. Vale empurrar, furar fila, tomar a frente das pessoas. Tudo para garantir um lugar para ir sentado, pelos próximos 30 minutos, tempo que dura o percurso.

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Perplexo, do banco onde estou, observo as pessoas se acotovelando, empurrando, se jogando sobre os bancos vagos, até que três adolescentes (um rapaz e duas moças) se sentam próximo a mim. Dois sentam-se em um banco na vertical, a frente do meu, e uma das moças senta-se ao meu lado.

As duas usam calças de cintura baixa, deixando expostas suas barrigas e o início do rego da bunda (o popular cofrinho).

A que se encontra ao meu lado é morena, de cabelos pretos, e extremamente gostosa. Já a que senta-se com o garoto é mais magra, bem mais clara e tem os cabelos pintados de vermelho.

O trem dá sinal de partida, as portas se fecham e a viagem se inicia. Então a adolescente que está ao meu lado puxa conversa com os outros dois.

– E aí mano, falou lá com o seu irmão? – dirigindo-se ao rapaz.

– Do quê?

– Que eu tô a fim de ficar com ele?

– Ih, se liga, meu irmão tem namorada.

– E daí? Eu também tenho namorado. Você também não tem namorada e fica com a minha irmã? É sério, vamo marca um role nos quatro.

Nesse instante toca o celular da garota. Era o namorado. Ela então, toda melosa, faz inúmeras juras de amor e combina de encontrá-lo mais tarde. A conversa dura quase 10 minutos, até que finalmente se despedem e ela desliga. O rapaz começa a tirar sarro.

– Putz mano, esse cara é um boi…Um boizaço! Rsss

– Por quê? Eu só fiquei com quatro caras desde que a gente tá namorando.

A garota então tira uma aliança de compromisso do dedo e a entrega ao rapaz.

– Olha aí.

O rapaz lê um nome masculino gravado e a data do início do namoro.

– Caraí, vocês tão junto há quatro anos?

– É fio, tá vendo aí?

Ele então tenta colocar a aliança no próprio dedo, mas não entra. Ele então faz uma piadinha:

– Seu anel é muito apertado, meu dedo não entra rssss

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A outra garota, a única que gravei o nome, chamava-se Shirlei. Até então uma espectadora da conversa, ela caiu na gargalhada com o comentário do garoto e não se conteve.

– Apertado? Deixa o seu irmão ver o tamanho…rsss

A que estava ao meu lado, retomando o anel do rapaz, complementou.

– Ele vai ver o tamanho que tem Roma rsssss. O pai te ligou hoje Shirlei?

– Ligou. Ele perguntou de você.

A garota do anel então se adiantou em explicar ao garoto.

– É que eu e a Shirlei somos irmãs só parte de pai, ta ligado? O nosso pai engravidou a minha mãe mas tinha um caso com a mãe dela e aí ela engravidou também.

O rapaz imediatamente se empolga com a história.

– Caraí, então ele meteu a piroca na sua mãe e depois na mãe da Shirlei? O cara é foda, hein!

– Nosso véio é foda, mano. Né não Shirlei?

– É. E o pior é que ele é maió novo, mano, só tem 37 anos. Maió mulecão. Cê acredita que ele vai pra balada com os moleque lá da rua?

– E além da gente, ele tem outro fio aí, com outra mulher, que a gente sabe. Minha mãe é que é troxa, só fica em casa, num sai pra lugar nenhum. Se eu fosse ela ia à forra também.

O rapaz então emendou:

– E a sua mãe é gostosa assim como você? Se for, eu mesmo dou uns cato nela.

– Vai se fudê mano. Você já cata a minha irmã.

Shirlei ria da conversa dos dois, sob os olhares de desaprovação das pessoas que estavam em volta e que forçosamente também ouviam a conversa.

– Seu pai num cato duas? Eu também quero cata rsss

– Meu pai é foda. Ele é maió legal assim. Se ele não fosse meu pai eu até dava uns cato nele, tá ligado? Apesar que eu não curto homem mais velho.

– Nossa, o veio deve manda bem na mulherada, né não? Acho que eu vô ligá pra ele pra pegar umas dicas rss. Mas quantos anos vocês têm?

– Eu tenho 17 e a Shirlei tem 15. Eu tinha dois anos quando ele engravidou a mãe da Shirlei.

A garota citada então faz questão de esclarecer.

– Ele ficava com a minha mãe só que ela não sabia que ele era casado. Aí, depois que ela engravidou, é que ela ficou sabendo e então mandou ele embora.

– Aí ele voltou pra minha mãe.

– E ela aceitou assim numa boa? – perguntou o rapaz.

– Aceitou, ué. Você nunca ouviu aquela história de que amor de pica é amor que fica fio? Rsss

– É por isso que vocês duas gostam tanto da coisa, não é? Rsss

– Lógico. Eu com 12 ano já tava experimentando…rssss

– E você, amor, experimentou com quantos anos? – perguntou o garoto a Shirlei.

– Com 13.

– Nossa mano, então já passou a torcida do Corinthians toda por aí rssss É por isso que você riu quando eu disse que o anel da sua irmã era apertadinho?

– Lógico. O meu e o dela já tão mais largo que o túnel do metrô rssss

Neste momento, o maldito alto falante do trem interrompe: “Estação final Guainazes. Favor desembarcarem nesta estação”. Em seguida os três se levantam. As duas garotas puxam suas calças para cima, ajeitando-as no corpo com um rápido rebolado e então todos descem da composição.

“Aparecido Franciscos é jornalista, trabalhador e, depois de torturantes anos ouvindo várias histórias do tipo nos ônibus de Guarulhos, agora é obrigado a curtir as melhores pérolas no Expresso Leste Luz-Guaianazes. Ele ainda acredita na humanidade. Ou não.”

4 respostas para “Enquanto isso, em um trem lotado”

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