Por que educamos?

POR QUE EDUCAMOS?

*Marcos Serafim

Falar de educação não é tão simples como parece. Refletirmos sobre o porquê educamos é mais complicado ainda. Principalmente porque a maioria dos educandos das camadas populares mais pobres vivem uma situação sócio-econômica e psico-social muito difícil e conturbada. Como se não bastasse, o Estado, infelizmente, vira as costas quando se trata de uma educação de qualidade na rede pública. A resposta é uma progressão continuada.


Fica óbvio que educação de qualidade não encontra lugar vip ou tem prioridade em um Estado democrático de direita. Até porque a educação tem como alguns dos objetivos visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana, formar pessoas conscientes de sua dignidade e ainda esclarecer e fortalecer o respeito e as exigências pelos direitos humanos e liberdades fundamentais.


O Estado democrático de direito obviamente não quer uma política educacional de qualidade que atinja níveis de eqüidade e de justiça social no Brasil para os pobres, pois se realmente quisesse, faria acontecer.


Obviamente. quem sofre é o “populacho” escondido, para inglês ver, no porão da obscura base da pirâmide que representa a má distribuição da renda no mundo, lá onde a miséria fica paralisada.


No entanto, talvez a melhor maneira de tentarmos responder o porque educamos, seja simplesmente expor nossas experiências. O que vivenciamos e sentimos ou estudamos e refletimos sobre o educar.


Educar não é fácil. É um compromisso de coragem. Principalmente porque somos educadores conscientes da má-fé do Estado. Também porque podemos, graças a Deus para quem não é ateu, apesar da tristeza que isso traz, trabalhar com um povo minorizado e excluído, que faz parte de uma porcentagem que vive lutando às margens da sobrevivência. Que além da deficiência da educação, encontram-se sem o direito de bem-estar, de gozar dos padrões básicos de nutrição, saúde, moradia, água e saneamento básico.


Entre outros motivos é por isso que educamos. Porque também acreditamos (há quem discorde) que o saber promete transformar o cidadão e dar a ele uma chance de reflexão e de subir um degrau na escalada do desenvolvimento social e urbano.


Segundo Paulo Freire, a educação tem como prioridades construir e libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal e que educar é ensinar as pessoas a pensarem certo.


O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, confirma isso dizendo que a prioridade da educação é promover capacidades intelectuais, artísticas, emotivas e físicas de cada discente e que a educação é o cultivo e adestramento de si, das características próprias de cada sujeito e de seu potencial criativo.


Seriam somente estas as respostas do porque educo?


Não!


É preciso muito mais que um simples trabalhar em sala de aula, mais ainda do que usar um quadro negro (por incrível que pareça) e verbalizar teorias. É preciso usar outros instrumentos de capacidade intelectual para realmente tentarmos libertar os oprimidos e incentivarmos a transformação do mundo ou pelo menos a realidade de cada um. Acredite ou não, temos que mostrar que ainda existe liberdade. Mas para que um indivíduo tenha liberdade nós também precisamos ser livres, já que livre, segundo Cecília Meireles, é o estado daquele que tem liberdade. Segundo que a outra forma de mostrar ao jovem que ele é livre para transformar o mundo, ou a si mesmo, seria através de uma formação cidadã incluente, sem sectarismo.


Florestan Fernandes faz uma reflexão sobre essa possibilidade de transformação, com base na educação. Ele diz que a grandeza de um homem se define por sua imaginação. E sem uma educação de primeira qualidade, a imaginação é pobre, e incapaz de dar ao homem instrumentos para transformar o mundo.


Muitos tocam trombetas e inflam o peito para dizer que têm compromissos ou finalidade “estatutária” pedagógica de ensino, seja ela na rede pública ou em Ongs, mas o educador deve compreender que a realidade dos jovens de comunidades carentes é esta: são analfabetos e semi-analfabetos, são hipossuficientes, vivem sem uma estrutura familiar afetiva, não tem noção de seus direitos, vivem em situação de risco social e pessoal constante e são excluídos em uma sociedade onde o acesso desigual aos bens culturais e de consumo é apenas uma face da opressão física e psíquica.


Enfim, acredito que é por isso que educamos e, como educadores, é a essa realidade que temos que “prestar contas”.


Temos que ter a mente aberta para isso.


Marcos Serafim, é em primeiro lugar, Militante Negro, depois Educador Social, Jornalista, Pós-graduando da Fesp-SP. É ainda um enxerido, intrometido e algo mais no curso de Formação Cidadã da Escola de Governo – IPESG.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

um × quatro =